(Não sei o que me deu, só sei que sinto e preciso, de abrir o 'jogo' aqui, por palavras. Na verdade, este texto foi escrito ontem, dia 21.)
Quando, há dois anos, estava naquela unidade hospitalar naquela sala a tentar passar o tempo sem pensar nos riscos, olhei para o relógio centenas de vezes. Acho que de 5 em 5 minutos, inconscientemente olhava para ele. São daqueles relógios que também mostram o dia que é. Dia 21 e só tinha passado um mês, desde o meu aniversário. Dizem que a entrada nos 18 é marcante e a minha foi. Marcou-me a alma e o meu eu. Ocorreu tudo tão depressa e foi tão intenso e pesado que, passado um mês, naquela sala, dei por mim a dizer 'pareceu-me um ano!'. Não estava a mentir, estava tão desgastada que pareceu mesmo que tinham passado 365 dias. Mas não, passara só um mês.
Ás vezes penso se não seria mais fácil lutar contra algo que fosse mais concreto. Pelo menos podia, efectivamente lutar contra isso. No meu caso, não. Só posso lutar quando, por norma, está tudo perdido. É estranho, não é? Tenho momentos que acho que é irónico.
Vivi, tanto tempo, uma vida, a minha, sem a viver. Ainda hoje. A culpa, em maior parte é dos meus médicos. Eu explico. Ou melhor, vou tentar explicar algo que não percebo; eles querem que eu não arrisque, que não faça coisas radicais, que não faça coisas simples, que não faça isto ou aquilo, por ser perigoso para mim, no entanto é ao arriscar que uma vida pode ser, de facto, vivida e não existida. Porém posso arriscar nas cirurgias (a palavra voo, que tantas vezes aqui escrevi, significa cirurgias), posso arriscar aí, mas de que me vale isso se não sou eu que estou naquela maca? Quer dizer, sou eu, mas é só o meu corpo, porque eu, estou anestesiada, a dormir e depois acordo cheia de dores e a rogar pragas a não sei bem quem, porque custa, dói mesmo muito acordar de uma cirurgia , que ironicamente, seria para salvar o que estava a perder, mas perdi tudo e ainda mais do que antes da cirurgia. Não creio que isto seja viver a minha vida, mas sobrevive-la. Tenho desejos, objectivos e sonhos que são adiados para sempre, por causa das sequelas das operações. Como todas as crianças, sempre quis ir à Disney mas nunca foi possível, até aos meus 16 não existia condições económicas para tal, a partir dos 16 cortaram-me as assas, com um 'não podes andar de avião e de carro também não é aconselhável'. Sim os médicos, que tive até hoje são peritos em destruir sonhos! Será mesmo para meu bem ou para não terem trabalho comigo? Ahh, minto, tive um, o Drº Távora, para mim o melhor neurocirurgião que existe no País, ele sempre me disse ' vive a tua vida. Os teus pais não querem arriscar, mas tu arrisca a viver a tua vida'. Ele sempre foi e é muito duro e exigente, tal como quase todos os neurocirurgiões, mas sempre quis uma coisa que o meu actual médico não me deixa fazer (e ainda goza comigo e com a minha falta de saúde): o Drº Távora quer que os doentes que segue vivam do vento da vida, dos desejos e sonhos que têm e não à mercê dos médicos Foi necessário ele sair do hospital para eu lhe dar razão e comecei, há pouco tempo, a viver. Sempre quis andar de balão de ar quente e contra os médicos e os meus pais, fui voar e fui feliz porque vivi, porque realizei algo que queria muito há imenso tempo. Passei por cima dos 'não podes', dos meus médicos, e não lhes passei cartão e foi o melhor que fiz até hoje. Não sei quando, só sei que irei á Disney e de avião. Porque sempre quis isso, e não é um capricho, mas sim, um sonho que cresce comigo desde pequena. Fui roubada e roubei. A vida roubou-me a infância, a audição, o choro, o riso. E agora quer roubar-me os meus olhos. Sem querer roubei, ao meu irmão, a sua infância, a sua inocência, os dias que podia estar com os amigos dele e está no hospital comigo, as férias por gastarem tudo nos meus medicamentos, os treinos do futebol por calhar nos mesmos dias que as terapias, acho que lhe roubei alguns sonhos e ele, só tem um sonho: que eu fiquei melhor. O meu avô morreu sem saber o que eu tinha, mas todos os dias perguntava à minha mãe o porquê de ir tantas vezes a Lisboa, ela não lhe respondia. Porque se o fizesse roubava ao meu avô meses de vida.
Gostava bastante das aulas e era uma croma, amava a matemática e detestava português. Hoje não. Adoro escrever e pegar num livro e lê-lo. Dantes nem um livro por ano lia, hoje, por ano, leio uns 25 a 30 livros e gosto, gosto muito. Os números.. Continuo a gostar deles, mas a medicação afectou-me a esse nível, era o meu calcanhar de Aquiles porque refugiava-me nos números, hoje refugio-me nas letras.
Outra das coisas que me custou muito a perder, para além da música, foi a natação. Sempre fui muito dada a estar na água, na praia. Adorava nadar, nadar a sério. Cheguei a ir a várias competições (quando não sabia que tinha uma doença) e imaginava o meu futuro passasse por estar dentro ou muito perto da água. Mas não, mais uma vez fui roubada. A cirurgia fez com que eu não pudesse nadar, nunca mais. Nadar a sério.
Isto, não é estar a queixar-me, mas escrever sobre factos reais, que me aconteceram e que é necessário (para mim, porque sinto que tinha de escrever. Porquê? Não sei.) escrever sobre eles.
É que os médicos tratam doenças, mas não se lembram que as pessoas que carregam consigo um grande fardo, a nível de saúde, para todo o sempre, continuam a ser pessoas, a serem humanos, a terem sonhos e desejos. A doença é a doença, porque eu continuo a ser eu, continuo a ter a minha essência, só tenho é uma doença que mora dentro de mim. Mas sou e serei uma pessoa antes da doença. É isso que alguns médicos não sabem. Ou não querem saber.
É que os médicos tratam doenças, mas não se lembram que as pessoas que carregam consigo um grande fardo, a nível de saúde, para todo o sempre, continuam a ser pessoas, a serem humanos, a terem sonhos e desejos. A doença é a doença, porque eu continuo a ser eu, continuo a ter a minha essência, só tenho é uma doença que mora dentro de mim. Mas sou e serei uma pessoa antes da doença. É isso que alguns médicos não sabem. Ou não querem saber.
Só me resta dizer isto:
vivam uma vida VIVIDA e não existida.
Concordo plenamente contigo! Espero sinceramente que consigas viver a tua vida, aproveitá-la, concretizar os teus sonhos! Obrigada por partilhares o que sentes, quantas vezes nos aborrecemos com coisas tão pequeninas e que não valem a pena? Dou comigo a pensar que temos que aproveitar cada momento!
ResponderEliminarCoragem!
Muitos beijinhos
Estou sem palavras... apenas um repetido vive a vida! ;) beijocas
ResponderEliminarEstou estarrecida. Não consigo dizer uma única ideia, a não ser que a tua força para viver, apesar das dificuldades e dos sonhos adiados, é louvável. Nunca a percas. :)
ResponderEliminarAi, deixaste-me sem saber o que dizer! Às vezes 'ouvir' testemunhos como o teu são uma motivação e um abanão para nós, falo por mim que me queixo com coisas estúpidas e banais. Espero que consigas ir à Disney e que faças muitas outras coisas que te deixem feliz! Beijinho grande e desabafa sempre que quiseres por aqui, qualquer coisa podes também mandar um e-mail (:
ResponderEliminardepois de ler estas palavras, orgulho-me ainda mais de ti.
ResponderEliminarés linda, uma lutadora.
sabes que te admiro tanto, tanto, tanto, não sabes?
adoro-te borboleta, voa, voa, voa <3
nunca será demais princesa! ly <3
ResponderEliminar^^
ResponderEliminarSeguindo o blog :)
Se puder retribuir, ficarei grata. Seu comentário é fundamental.
Que seja doce...
Beijos
Nah Phatcholly
Não deixes que te tentem «roubar» mais. Vive enquanto podes (:
ResponderEliminarmais uma vez se lêm palavras de uma menina especial.
ResponderEliminarAdmiro-te muito.
*embuscadeumaestrela*
Aproveitar a vida ao máximo e sem implicar e resmungar com tudo ;)
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